Juliana Gueiros e Antônio Maurício

Dividindo o apreço pela simplicidade

Rio de Janeiro

Gastronomia, Arquitetura, Design

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Texto por Maria Vitória Martins
Assistência de edição por Carolina Ernst
Fotografias por Pyetra Salles e Yghor Boy

Em um edifício baixo dos anos 50, a alguns quarteirões da praia, Juliana e Antônio escolheram o primeiro apartamento para morar juntos. Falam com afeto sobre como amam a cidade do Rio de Janeiro e como se relacionam com seus bairros por meio de seus projetos.

Enquanto a Ju construiu com carinho uma comunidade sólida nas redes sociais em torno da sua paixão pela cozinha, o Antônio fundou a Cabiúna, marca de mobiliário, design e iluminação com espaço no Centro. Com autenticidade, buscam trabalhar com o que mais admiram e perseguem escolhas alinhadas com o que genuinamente acreditam.

Mesmo com seus projetos individuais, são bastante parceiros ao longo dos percursos – compartilhando, ajudando e participando no projeto um do outro. Em tempos de alta cobrança por produtividade e performance, mostram uma tentativa de rotina mais calma. Conversamos sobre processos, escolhas e desejos por trás do que constroem.

1. Ju, me conta um pouco sobre você e sobre sua trajetória?

Juliana
Eu sempre gostei de cozinhar, era um momento em que eu ficava muito com minha mãe e com meu irmão. Nunca enxerguei como uma profissão que desejava seguir. Passei para uma faculdade nos Estados Unidos, na USC, mas, como as aulas só iriam começar seis meses depois e a Carol, minha melhor amiga, ia fazer um intercâmbio em Paris, surgiu a ideia de ir junto para estudar gastronomia nesse meio tempo. Comecei a pesquisar, não sabia muito para onde ir. O Cordon Bleu tem muito nome, muito peso, especialmente para quem não conhece tanto. Optei por lá, cursei  a faculdade, amei, e depois trabalhei em restaurante por um tempo, algo que já não amei tanto.

Voltando para o Brasil, com 19 anos, acabei decidindo que não queria mais ir para a Califórnia. Minha infância inteira foi marcada por muitas mudanças. Meu pai trabalhava em uma multinacional, então de três em três anos a gente se mudava. Escolhi ficar por aqui. Fiz faculdade de administração, porque eu não sabia exatamente o que queria, mas sabia que não queria trabalhar em restaurante, então achei que era um bom caminho.

Ao longo da faculdade, mantive a cozinha muito presente: cozinhando para amigos, vendendo quentinhas e doces no Natal. Nunca abandonei. Trabalhei no escritório do Grupo Trigo, que tem várias marcas de comida, mas na área de análise numérica e inteligência de negócios. Era o outro lado da moeda, o que foi super interessante também.

Acabou que o Antônio  foi trabalhar na Dinamarca e eu fui junto. Cheguei lá sabendo que não queria trabalhar em restaurante, mas eu estava um pouco limitada por não saber falar dinamarquês. Por acaso, vi no instagram que a padaria de um chefe que eu acompanhava, o Richard Hart, estava abrindo na cidade. Fui lá, entreguei meu currículo, passei pelo processo seletivo e trabalhei por um ano na padaria. Adorei a experiência. Voltei para o Brasil decidida que queria trabalhar com comida mesmo, mas não sabia ainda como.

Retornei com o projeto das quentinhas, que eu já tocava durante a faculdade, mas aí veio a pandemia e parei com tudo, me fechei em casa. Minhas amigas começaram a pedir para eu gravar receitas. “Ju, você tem que ensinar a fazer arroz, não sei nem fazer feijão, pelo amor de Deus”. Já postava no Instagram, mas eram mais fotos das minhas refeições, eu tinha somente 3.000 seguidores e nunca tinha me filmado cozinhando. Foi nesse momento, em que todos estavam em casa e muitos querendo aprender, que comecei. Em cinco meses, passei a ter uns 50.000 seguidores, cresceu muito rápido.

Depois de um ano postando todos dias, sem ganhar nada com isso, começaram a surgir várias marcas querendo fazer publicidade. Peguei muito esse boom das marcas indo para o Instagram. Ainda muito perdida, não tinha muita noção de nada, comecei a me estruturar e foi aí que começou o meu trabalho com isso.

2. E Antônio, me conta um pouco sobre você e sobre sua trajetória?

Antônio
Eu fui um aluno de arquitetura obcecado. Tinha uma ideia muito forte do arquiteto como um grande autor por trás de grandes obras que marcam a cultura ou um momento. A realidade é que no dia a dia não é nada disso. A gente foi para a Dinamarca e trabalhei lá num escritório de um grande autor desses. Foi uma experiência incrível, mas também foi um banho de água fria ver que na prática nem tudo eram flores. Quanto maiores os projetos, mais burocráticos, mais pessoas envolvidas, etc.

Enquanto estávamos por lá, foi interessante porque conheci muitas marcas jovens de móveis e design. Eu fiquei encantado com todas. Fora o design escandinavo que eu já conhecia, mas encantado com muitas jovens empresas de design que promoviam sua produção e tentavam fazer de uma forma diferente.

Voltei para o Brasil decidido que eu queria trabalhar com isso, observando um espaço para jovens marcas. Não via a cultura de móveis, design, iluminação e marcenaria brasileira se manifestar muito de forma contemporânea e jovem para a minha geração. Ainda trabalhei um pouco como arquiteto, mas, durante a pandemia, comecei a pensar a Cabiúna em paralelo. Botei a cabeça para baixo e foram alguns anos criando a ideia do zero.

É muito bom ouvir esses banhos de água fria, né? Vejo agora mesmo, no processo do Esquina — chegam comentários que você pensa: “Nossa, isso é totalmente um banho de água fria.” No começo somos meio ingênuos mesmo e vejo muito valor nisso. Mas é um sentimento misto entre “ainda bem que me alertaram” e “nossa, não destruam meu sonho”.

Antônio
Sim, eu passei por vários desses. Eu já li e ouvi que uma pessoa, para empreender, tem que ser meio inconsequente. Ouvi isso algumas vezes. E, de verdade, pessoas com personalidades inconsequentes são as que empreendem, que seguem esses caminhos e se arriscam. A parte boa de ir levando esses banhos de água fria é que você é forçado a repensar as coisas: no que você acredita ou não acredita e como aquilo se adapta a diferentes realidades.

3. Nesse sentido, qual foi a maior dificuldade em tornar seus projetos realidade?

Juliana
Para mim, a maior dificuldade é que eu não sou nem um pouco essa pessoa inconsequente. Empreender foi sair muito da minha zona de conforto, porque eu tenho essa vontade de querer controlar o incontrolável. Acho que, se eu gostasse de arriscar mais, seria um pouco mais fácil para mim. Tomar essa decisão foi muito difícil. Investir dinheiro, arriscar, sempre me pergunto “Será?” Eu sou muito objetiva e racional. Dá muito medo, mas você tem que ir com medo mesmo.

Antônio
Para mim, acho que a maior dificuldade, de maneira geral, foi a de que eu não era um designer de produtos. Além disso, eu nunca tinha empreendido antes ou trabalhado numa empresa desse tipo. Mas, diferente da Juliana, eu sou meio tomador de risco. Não acho que eu tenha uma personalidade totalmente inconsequente, mas eu meto a cara e pago para ver. Sendo eu sozinho, sendo uma empresa independente, sem um super investimento e com uma equipe pequena, eu faço de tudo. Comecei sem conhecer ninguém e é uma indústria de contatos. Então fui bater em muitas portas para tentar vender meu peixe e, de pouco em pouco, ir construindo relações.

4. Ju, e como surgiu a ideia de construir um espaço físico para aulas presenciais?

Juliana
A ideia do Rôti na Cozinha surgiu em 2024. O Instagram é muito bom, mas eu sentia muita falta desse contato físico. Você fala com uma tela e, por mais que tenham pessoas do outro lado, é meio estranho. Eu tinha muita vontade de voltar para o físico. Eu não sabia exatamente o que gostaria de criar, mas sabia que queria sair do digital. Minha melhor amiga estava saindo de um emprego e eu falei que tínhamos que trabalhar juntas. Começamos com a ideia de vender molhos, mas tivemos algumas reuniões e foram banhos de água fria. Voltamos atrás e ficamos um pouco desanimadas.

Depois disso surgiu a ideia de abrir um restaurante. Chegamos a olhar um ponto, quase fechamos, mas bateu um certo desespero vendo quantidade de funcionários, folha de pagamento, etc. Pensei que se ficássemos endividadas, daríamos alguns cursos para fechar o mês. Foi quando a Carol sugeriu “Bom, então por que não damos somente aulas?” e assim que surgiu. Eu sempre gostei dessa troca, sempre gostei de ensinar. Seguimos por esse caminho, achamos um espaço, fizemos a obra e nasceu o Rôti.

5. Você sentiu mudanças na forma de relacionar com as pessoas que te acompanham a partir do contato presencial?

Juliana
Eu acho muito gratificante colocar rostos nos nomes que me acompanham. Eu tenho seguidoras com quem eu troco toda semana e nos encontrarmos ao vivo é muito energizante. Acho que o Instagram – e tudo na vida hoje em dia – está muito corrido. Ter duas horas para conversar, olhar no olho, explicar, se aprofundar, e ter essa troca é muito, muito bom. Alguém conta uma história, uma avó fala do neto que fez essa receita, conheço pessoas que eu talvez não conheceria em outra circunstância, pessoas veem de outras cidades.

Quando começamos, a Carol comentou que achava que devíamos dar aulas para funcionárias e eu tive receio por geralmente já trabalharem há muitos anos com isso, já saberem cozinhar muito bem e estarem acostumadas com seus jeitos de cozinhar. Achei que poderia ser uma turma resistente, por eu ser jovem também, mas resolvemos tentar e o resultado foi inexplicável para mim. É a minha turma favorita de dar aula. São pessoas que cozinham com muita frequência, sabem cozinhar bem, mas saem felizes “Você me deu uma ideia, me deu uma dica, me mostrou uma receita que facilitou minha vida.” É um feedback de pessoas que estão no dia a dia da cozinha, muito gratificante.

Mas a rotina realmente tem sido muito gratificante. Eu comecei em casa e fiquei num certo resquício de pandemia, continuei em casa gravando. Mas eu sou uma pessoa sociável, gostava de trabalhar em escritório, daquele momentinho do café, sentia falta de pessoas. E é muito engraçado, às vezes alguém vem falar comigo na rua, “querida”, e eu fico: “Será que eu conheço essa pessoa?” Mas realmente sentem que me conhecem, né? Eu também sigo várias pessoas que eu sinto que eu conheço.

6. Enquanto você divide seu dia a dia, percebemos seu olhar atento, suas escolhas e preocupações – como nas receitas com as sobras da semana. Como você enxerga essa relação entre o nosso dia a dia, a comida e a sua responsabilidade diante do que apresenta?

Juliana
Eu acredito que a cozinha pode ser descomplicada e possível com o que você tem. Hoje em dia, virou um espaço um pouco intimidador para muitas pessoas. Acho que não deve ser sobre você fazer um banquete de sete pratos, porque isso, no dia a dia, não só inibe, como é irreal, ninguém tem tempo. Tento mostrar que pode ser mais simples.
Também existe atualmente um terrorismo nutricional que me incomoda muito. Procuro mostrar a importância da comida de verdade, feita em casa e sem grandes nóias.

Sobre as receitas pensadas em evitar desperdícios, eu acho que sou muito prática. Se tenho uma abóbora e uma semana corrida, já penso “Vou cortar a abóbora hoje e farei metade assada e metade purê para não comermos a mesma coisa todos os dias.” Acho que essa equação vem muito com a prática. Quando você cozinha com bastante frequência, vai ganhando uma certa destreza. Novamente, o que tento passar é que não devemos complicar demais.

7. Ju já contou um pouco da Carol, sua melhor amiga e braço direito. Além de vocês, há mais pessoas por trás da Roti e da Cabiúna? Com quantos colaboradores vocês contam atualmente?

Juliana
Além de melhor amiga desde a escola, a Carol é meio brilhante e ela que cuida de tudo: do site, ela que montou todo o Instagram do Rôti, toda a programação das aulas, etc. Tudo operacional, ela que cuida. Só nós duas que fazemos tudo, é muito bom ter ela comigo. Eu acho que empreender sozinho pode ser muito solitário, então faz muita diferença.

Antônio
Na Cabiúna, várias pessoas trabalham para que uma peça aconteça. Atualmente no escritório somos eu, a Mafe, que cuida da parte mais operacional; e o Kauan, um designer estagiário. Antes do Kauan, estava também o designer Heitor, que ficou quase um ano e sete meses. Além dessas três pessoas no escritório, tem também o meu amigo e arquiteto Lucas Coelho Netto. Nós dividimos escritório. Então ele não trabalha na Cabiúna, mas é quase como se trabalhasse.

Juliana
Ele é do conselho.

Antônio
É, ele é do conselho. Toda a parte financeira eu comecei a terceirizar no ano passado, com uma empresa com quem estou sempre em contato. Além disso, trabalhamos com fornecedores. Fazemos os desenhos na Cabiúna e temos uma rede de fornecedores que executa. Trabalhamos com duas marcenarias principais, as duas em São Paulo — uma na capital e outra no interior. São marcenarias pequenas, familiares, cada uma comandada por um casal que trabalha diariamente na produção. Tenho uma relação pessoal com eles, viraram amigos. Por mais que não estejam dentro da empresa, temos um contato diário.

Eu acredito que a cozinha pode ser descomplicada e possível com o que você tem. (...) Tento mostrar que pode ser mais simples.

8. E Antônio, pode contar um pouco mais sobre a produção da Cabiúna? Como esse olhar para a durabilidade e para o impacto do que vocês produzem foi se formando pra você?

Antônio
Eu sabia que queria contar histórias sobre como as coisas são feitas, porque isso já me fascinava. Sempre gostei de fazer tudo por conta própria, daqueles vídeos mostrando como as coisas são feitas por trás das câmeras. Antes de pensar na Cabiúna, acompanhei uma onda de marcas comunicando sobre suas cadeias produtivas e virei fã de várias empresas que iam contando sobre seus percursos. Então, quando comecei, essas histórias já estavam muito na minha mente.

Voltando da Dinamarca, tomei um banho de água fria. Pela influência de empresas européias que fabricavam com muita tecnologia, eu estava pensando em peças que só podiam ser fabricadas por máquinas, o que não existia aqui – pelo menos não na escala em que eu estava trabalhando. Isso foi um ponto de virada muito grande na minha cabeça.

Imagina: eu estava vindo do BIG, onde trabalhava o dia inteiro no computador, com impressora 3D, modelando geometrias hipercomplexas, e cheguei torcendo para que aquilo pudesse ser executado. Nas marcenarias, percebi que era praticamente impossível fabricar aquilo de maneira artesanal. Foi nesse momento que ocorreu uma virada de chave. Passei vários dias com os marceneiros e, nesse início, desenvolvemos as duas linhas que saíram em 2024, a PS e a Lourdes, que depois foram premiadas na Alemanha. Acho que o mérito delas é esse: foram desenvolvidas e elaboradas pensando na capacidade de manufatura e na beleza da artesania daqueles artesãos.

À medida em que tudo foi acontecendo, eu fui registrando o processo. Quando eu falo que faço tudo na Cabiúna, eu faço tudo mesmo. No começo, eu não tinha dinheiro para contratar fotógrafo, então aprendi a fotografar e ficava lá registrando e conversando nas marcenarias Foi principalmente durante esse processo que eu fui realmente vendo a beleza do feito à mão. De alguma forma, aprendi a ser menos controlador e a apreciar mais o que estava ali, a entender que eu realmente não sou o único autor da coisa.

9. Quais são as principais origens dos materiais utilizados por vocês?

Antônio
Todas as madeiras que usamos são brasileiras. Cada lote de madeira pode vir de um lugar diferente porque as marcenarias compram de distribuidores. Tem partes que vem do Nordeste, outras do Sul. Então varia muito por lote de madeira.

10. Como é o processo de criação de uma peça da Cabiúna? Para cada uma, foram processos semelhantes? Você diria que tem alguma semelhança entre elas?

Antônio
Os processos são muito parecidos, acontecem na tentativa de entender o que diferentes artesãos conseguem produzir e o resultado das diferentes formas de fabricação. São sempre pretextos para tentar fazer uma peça manifestar o trabalho de quem a fez.

A linha de luminárias de cerâmica que eu fiz, com uma ceramista aqui do Rio, Alice Felzenszwalb, é um desses casos . Sabia mais ou menos como funcionava o processo e, trabalhando com ela, a ideia era de que todas as peças fossem justamente uma manifestação daquela técnica. Os formatos delas são a forma que as mãos conseguem fazer no torno e as marcas dos dedos nas peças são outras nuances, deixadas de propósito – quase como se estendesse a história e o processo fabril para a própria peça. Um pouco daquele pensamento do Louis Kahn, “o que o tijolo quer ser?”. Eu sempre fico pensando nisso. Tem muito da faculdade de arquitetura que ficou comigo. Na cerâmica, a ideia fica muito clara, porque a mão fica marcada, mas isso acontece também em todas as peças da marcenaria.

Sempre tento também incorporar algum tipo de lógica de reciclagem, descarte ou separação de peças. Nessas linhas que mencionei — a PS e a Lourdes — não existem dois materiais que são fixados de forma permanente. No momento de uma reciclagem, você consegue separar tudo. E no caso da coleção PS, qualquer peça que for danificada pode ser trocada. É uma coleção que poderia ser toda desmontada. Eu tento incorporar essas ideias a todas as peças.

Muitas pessoas veem minhas peças como minimalistas “isso é japandi, scandi”, etc. Acho que, quando olho as peças que faço – ou o tipo de peça que admiro – só parecem simples num primeiro olhar e pra um olhar destreinado, porque tem muita complexidade por trás daquilo.

Juliana
Sim, por trás da simplicidade.

Antônio
É, e não é a simplicidade pela simplicidade. Eu penso em um paralelo meio óbvio: um alfaiate. O real trabalho dele não está na estampa, mas no caimento da peça, no corte, na costura. É ali que está a real complexidade. Entendo que as pessoas batam o olho e pensem que “não tem nada além”. Só que, se você parar para olhar com calma, ou se souber um pouco mais sobre o assunto, vai ver que tem muita complexidade ali.

Juliana
Tem uma história muito engraçada. Uma vez um casal veio jantar aqui em casa um pouco de última hora e, mesmo que não fosse, eu resolvi fazer um macarrão com molho de tomate. Quando chegaram, ela virou para mim: “Ah, um macarrãozinho de tomate? É bom também”. Tenho certeza de que, na cabeça dela, achava que vinha comer uma espuma com uma redução, aquele esquema de um milhão de sabores. A fala não me impactou por eu me sentir segura do acredito. As pessoas têm essa tendência de achar que “mais é mais”. Aquilo de reunir brie, parma, trufa, redução, espuma, isso e aquilo… porque aí “é melhor”. E não necessariamente, diria que até ao contrário. Às vezes você está tentando esconder algo quando põe tantas informações — talvez querendo mascarar as imperfeições ou a inexperiência.

Antônio
Tem sido uma linha de conversa recorrente entre nós, sobre como preferimos comer em restaurantes de comida do dia a dia do que alta gastronomia com 80 pratos. A gente entende o valor da alta gastronomia, vai com alguma frequência… mas é isso.

Outro assunto que conversamos — um desdobramento disso — é a percepção de valor no que nós dois fazemos. Desdobramos essas conversas em vários caminhos, mas nos questionamos, as pessoas acham que precisam, num dia especial, comer algo com trufa, um risoto e é engraçado. Parece que, quando você não entende sobre algum assunto, o maior balizador de qualidade é o valor. As pessoas confundem isso: mas será que o melhor é sempre o mais caro?

E a Ju traz também muito sobre esse lado afetivo da comida. O quanto que a tradição, o afeto — por exemplo comer um prato específico que sua mãe sempre fazia — vira um caminho muito mais gostoso de celebrar do que pela busca por um prato complexo.

Juliana
Sim, são as memórias que ficam. Alguém me chamou para comer em sua casa e fez um macarrão com um bom molho de tomate para mim, existe gesto mais afetivo do que esse? Acho que é um pouco por aí.

11. E o que você deseja para o futuro da Cabiúna? Você pode contar um pouco sobre alguma ideia ou projeto que esteja atualmente em processo?

Antônio
De forma mais direta: estou trabalhando em desdobrar o mesmo tipo de pensamento em produtos diferentes e processos de fabricação diferentes. Mas acho que o grande projeto da Cabiúna é conseguir fazer com que ela se expanda. Que consiga ser uma cultura, trazer mais pessoas que tenham independência ali — outros designers e pessoas de outras áreas também — para crescer esse organismo.

Eu sabia que queria contar histórias sobre como as coisas são feitas, porque isso já me fascinava. Sempre gostei de fazer tudo por conta própria.

Os processos são muito parecidos, acontecem na tentativa de entender o que diferentes artesãos conseguem produzir e o resultado das diferentes formas de fabricação. São sempre pretextos para tentar fazer uma peça manifestar o trabalho de quem a fez.

12. Antônio, a Cabiúna está com seu espaço no centro da cidade, na Rua da Candelária. Nos conta um pouco mais sobre a escolha da localização e do imóvel?

Antônio
Eu sempre tive meio que um desejo de estar em um sobrado, acho um charme. Em um país como o Brasil, com uma história razoavelmente recente, tem poucas construções dessa época com essa quantidade de caráter, de história — e a maior parte delas está no Rio. Eu estava precisando de um espaço maior para a Cabiúna e, quando comecei a procurar, começou a ficar evidente o quão desvalorizado estavam os aluguéis no Centro. Eu achei um desses vários sobrados históricos lindos disponíveis.

Eu não sei ainda a data da construção, não tenho contato tão próximo com os proprietários, mas deve ter uns 200 anos. Eu fico olhando as ferragens da porta original, claramente feitas à mão por um ferreiro. Tudo tem peso, é de metal, é pesado. As luminárias originais, a estrutura toda original, as paredes são de pedra com vigas de madeira. O espaço é um escândalo. Quando fui visitar estava horrível: cheio de divisórias, com rebaixos de gesso e luzes embutidas. Mas o térreo e o segundo andar já tinham deixado o teto original aparente. Então, na hora, eu já consegui visualizar como ficaria e soube que seria ali.

O prédio em si está ficando super legal. No andar de baixo de mim tem um estúdio de tatuagem, no de cima tinha um ateliê de costura de uma marca de moda [Hoje, novo espaço da Tapilogie.] e no térreo, onde antes era um espaço cultural de cinema, agora vai abrir um restaurante/bar. Eles expõem o trabalho de artistas independentes nas paredes, chamam bandas, é um espaço mais para a noite. E o Centro é incrível, né? São as contradições. Do meu lado tem um prédio antigo abandonado que foi ocupado, do outro tem outro prédio abandonado, na frente tem um restaurante de sertanejo, você está a cinco minutos andando do CCBB e da Casa França Brasil. Então é uma grande mistura, eu adoro estar por lá. Eu acho sim que a região está em um período de transformação. Tem a parte da insegurança por muitos imóveis vazios, mas a parte de riqueza cultural, de equipamentos urbanos e públicos é enorme. Acho que está num momento de virada de restaurantes e de coisas para fazer.

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13. E Ju, em 2024, você lançou um livro de receitas “Na Cozinha”. Com tantas coisas acontecendo no digital, escolher o papel é uma escolha cuidadosa. Você sempre teve vontade de ter uma publicação física? De onde veio essa vontade e o que foi mais marcante nesse processo?

Juliana
Eu fui uma criança totalmente obcecada por livros de cozinha. Ir na livraria e folhear os livros com a minha mãe foi um programa marcante da minha infância. Então sempre tive esse desejo e achava um máximo, mas nunca imaginei que iria acontecer. Foi a editora que entrou em contato comigo. Depois, soube que eles chegaram a fazer pesquisas sobre meu público e perceberam que eu respondia a várias demográficas diferentes. Achei muito legal saber o quanto o meu trabalho, ao falar sobre como acredito que a cozinha pode ser descomplicada, é acessível.

Foi um longo processo e é muito trabalho por trás. Eu tinha desde o início a ideia de que queria que cada receita tivesse uma foto. Acho muito frustrante quando não tem, porque você não sabe o que está almejando fazer, aonde vai chegar. Quase chegamos lá, acho que são umas 150 receitas e 130 fotos. A editora nunca tinha feito um livro de receitas, então também teve uma questão logística nesse sentido. Só tínhamos verba para fotógrafo durante um dia. Foi aí que o Antônio entrou. Falei “Olha, vamos fazer o seguinte. O Antônio mora comigo. Eu consigo fazer oito receitas por dia, ele chega do trabalho, tiramos as fotos e ficamos duas semanas registrando.” Pedi ajuda para a minha mãe, ela ficou duas semanas conosco fotografando tudo. Hoje até peguei no livro, porque estava fazendo conserva de beterraba, e pensei “Nossa, eu tenho um livro com uma receita eternizada no papel.” Também sou uma grande apaixonada por livros, em geral, sempre gostei muito de ler.

14. Então as lindas fotos da publicação foram registradas pelo Antônio, muitas vezes a Juju também cria receitas nas cerâmicas da Cabiúna, aparece nas fotos das peças, acompanhamos essa construção também em conjunto. Vocês trocam bastante sobre seus projetos?

Juliana
Eu peço a opinião do Antônio sobre tudo. Estamos juntos há muito tempo, então acaba que pensamos de forma um pouco parecida, acabamos influenciando um ao outro.

Antônio
E passamos muito tempo juntos, então acho que o interesse de um passa a ser do interesse do outro. A Juliana está lendo sobre algo, aí me conta, fico pensando sobre aquilo e vamos trocando. É orgânico, não tão intencional. Tiveram as cerâmicas que fizemos juntos. Na época, a Juliana estava fazendo aulas de cerâmica em um ateliê cuja dona acabamos conhecendo.

Juliana
E o Antônio estava nesse processo de começar a Cabiúna. Era pandemia, as fábricas estavam todas fechadas e todo mundo ligado nas redes sociais. As pessoas começaram a me perguntar de onde eram alguns dos meus pratos e eu: “Gente, eu que fiz, mas está todo torto.”

Antônio
Foi nesse momento que surgiu a ideia de fazer essa linha de cerâmica. Não era a ideia inicial da Cabiúna, mas resolvemos iniciar esse negócio juntos enquanto esperava a volta das fábricas. Pro meu lado, desdobrou depois nas luminárias da linha da Cabiúna.

Quando a Juliana fez o Rôti, o Lucas, com quem divido o escritório, fez o projeto. Eu tinha uma luminária ainda em desenvolvimento, que agora está quase pronta pra lançar, mas o protótipo está lá. As banquetas também fizemos – queríamos que fossem confortáveis, mas com dimensões suficientes para o espaço. Tem mais uma mesa e uns bancos lá que também refinamos e entraram em linha. Então é muito orgânica a nossa parceria.

15. Vocês acham que a experiência de moraram juntos em Copenhagen mudou o olhar de vocês sobre o cotidiano e a relação com a cidade? Tem algo que experienciaram lá que ainda influencia vocês hoje?

Antônio
Para o meu lado, o que ficou de muito mágico foi a intensidade e a intenção que eles têm com as menores coisas.

Juliana
Sim. O apreço pelo detalhe de tudo — em tudo. Desde o pão da padaria – é farinha e água, mas é a melhor farinha, a melhor forma de fermentação.

Antônio
Acho que é difícil pensar em como isso impacta nossa vida atualmente, porque é uma realidade completamente distinta, é uma cidade pequena comparada com o Rio, mas no meu caso teve esse apreço maior pela vida a pé. Lá era mais prático pegar a bicicleta do que transporte público. Hoje, acabamos tendo uma vida bem bairrista.

Juliana
Eu peguei carro duas vezes durante o ano em que moramos lá. Até para o aeroporto, mesmo com seis malas de mudança de volta, fomos de metrô. Eu acho que isso é o que eu mais levei. Eu sou uma pessoa que faz tudo a pé — praticamente tudo o que der, eu faço. Outro dia eu estava brincando: era meio-dia e tinha dado 15.000 passos.

16. Vocês andam bastante a pé e vivem a vizinhança. No bairro em que moram e no bairro em que trabalham, por onde vocês gostam de passear e quais lugares vocês gostam de frequentar e apoiar?

[todas indicações da Juliana e do Antônio estão no mapa no final da página]

Juliana
Eu faço tudo aqui no Leblon, ando para todos os lugares. De casa, ando seis quadras para o Rôti, vou para o supermercado o tempo todo, academia, etc. Aqui por perto, eu gosto muito de tomar café na Solo, vamos muito no Sabor Doc, que é o restaurante favorito do Antônio no mundo inteiro. Para ele, a melhor carne do mundo.

Antônio
As coisas que eu gosto aqui do Rio, eu falo “essa é a melhor do mundo”, nunca comi nada igual. Vamos muito na Momo, para mim, o melhor sorvete do mundo. Antes aqui do lado tinha uma unidade da Slow Bakery e eu vivia lá. Fechou, mas ainda compramos pão toda semana em outra unidade e congelamos. Comemos literalmente todos os dias. Para mim, ela tem o melhor pão do mundo. Já hambúrguer, o do BBQ é meu preferido.

Juliana
Academia da Cachaça para ir no domingo comer uma feijoada com seus amigos, é incrível. O Antônio é muito obsessivo e acaba passando um pouco para mim também. Se gostamos de um lugar, vamos muito.

Antônio
Eu estava pensando sobre o que falar sobre o Rio. Eu acho que não necessariamente o que a gente frequenta é o que a gente mais gosta. Algo que a gente começou a fazer recentemente, do ano passado para cá, são trilhas. Eu redescobri a natureza do Rio. A Floresta da Tijuca é tão incrível e a gente não valoriza tanto assim.

Juliana
Fizemos outro dia a trilha do Corcovado em uma hora e meia. Sai do Parque Lage aqui do lado, sobe, vê o Cristo, desce a trilha e depois vai almoçar. É um programa grátis e absolutamente incrível. Fizemos também outra subida pelo Parque Lage, saímos na Cachoeira dos Primatas, demos um mergulho e descemos a pé a Lopes Quintas para almoçar. O Rio também tem uma cultura muito legal de restaurantes que perduraram, né? Tipo o Filé de Ouro. Ele está aí há anos e entrega exatamente o que ele se propõe, num domingo de chuva ele vai ter uma picanha incrível, você vai ser bem servido, vai se sentir em um ambiente familiar. Tipo a Academia da Cachaça. É uma instituição, né?

Antônio
A cultura gastronômica carioca é a cultura do boteco, dos braseiros. Eu acho que é isso: a natureza do Rio é incrível. Você fazer uma trilha dessa, ir a uma cachoeira, ou até vista chinesa. É incrível fazer isso e depois ir a um boteco, num braseiro. Os dois lados do Rio não têm nenhum outro lugar, talvez do mundo, assim misturado: essa coisa da natureza com a cultura, com a história. É o Parque Lage, é a trilha, é o Centro do Rio, é o Palácio Capanema… isso só tem aqui.

Indo para o Centro, perto do sobrado tem um lugar que eu adoro: o Beco das Sardinhas. É uma área que ficou famosa porque tinham vários PFs de sardinha. Agora mudou um pouco, mas lá tem o restaurante Capiau, de comida caipira à lenha – muito bom. Tem um taco de pão de queijo com pernil, que é uma delícia, e umas batidas de maracujá e coco que são um escândalo. É um lugar bom para, depois do trabalho, tomar um chope, beber uma batida, comer um negócio. Em frente ao Capiau tem a Igreja de Santa Rita, que era a santa da qual meu avô era devoto. Ele vivia lá, era a igreja dele. Então esse canto tem um lugar especial para mim. Perto tem o Esquimó, um PF clássico do Centro, enorme. Quem for lá, vai comer muito e muito bem.

17. Para cada um de vocês, pensando na sua relação com a cidade do rio, qual diriam ser a sua esquina?

Juliana
Diria que a minha é a João Lira com a Conde de Bernadotte.

Antônio
No momento em que tenho curtido aquela região perto do meu trabalho, diria que a minha esquina atual é a do Beco das Sardinhas.

Conversa realizada em novembro de 2025.

Lugares, negócios ou projetos que gostam de frequentar e apoiar

Rio de Janeiro

01 Cabiúna

R. Candelária, 92 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-020

02 Casa Capioca

R. Conselheiro Saraíva, 10 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-030

03 Tapilogie

R. Candelária, 92 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-020

04 Edifício Palácio Gustavo Capanema

Rua da Imprensa, 16 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20030-120

05 Esquimó Restaurante

R. Miguel Couto, 124 - 124 D - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20070-030

06 Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB)

Rua Primeiro de Março, 66 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20010-000

07 Casa Brasil (antiga Casa França-Brasil)

Rua Visconde de Itaboraí, 78 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20010-060

08 Capiau Botequim

Rua Miguel Couto, 124a - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20070-030

09 Lilia Restaurante

Rua do Senado, 45 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20231-005

10 Parque Nacional da Tijuca

Estrada da Cascatinha, 850 - Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro - RJ, 20531-590

11 Cachoeira dos Primatas

Rua Sara Vilela - Jardim Botânico

12 The Slow Bakery

R. General Polidoro, 25 - Botafogo, Rio de Janeiro - RJ, 22280-004

13 Academia da Cachaça

Rua Conde de Bernadotte, 26 - Leblon, Rio de Janeiro - RJ, 22430-200

14 Doc 605 (Antigo Sabor D.O.C.)

Rua Dias Ferreira 605, Leblon, Rio De Janeiro

15 Momo Gelato

Rua Dias Ferreira, 147 - Leblon, Rio de Janeiro - RJ, 22431-050

16 B. B. Q Shop

Rua General Urquiza, 67 - Lj A - Leblon, Rio de Janeiro - RJ, 22431-040