Texto por Maria Vitória Martins
Fotografias por Yghor Boy e Téia Bertoletti
Carregando lembranças de sua infância e de sua família, Marina foi descobrir, depois de anos no corporativo, o quanto se realizaria trabalhando com o garimpo de móveis e objetos. Fundou a Casa Capioca com a convicção de que poderia construir um negócio alinhado a seus desejos e princípios. Sem se restringir a design, época ou tipo de móvel, vende peças garimpadas online e agora também presencialmente em seu novo espaço.
É nítido o cuidado que deposita em todas as etapas do processo, da escolha de uma peça até sua chegada à casa dos clientes. Cultiva relações de parceria com marceneiros, restauradores, estofadores, empalhadores e entregadores, contribuindo para a continuidade de ofícios cada vez mais raros. A partir da apresentação de sua grande amiga e vizinha de negócio, Mariana Wakim, conversamos sobre a origem desse olhar atento para o meio ambiente e para as pessoas, sobre a construção de uma vida profissional mais próxima dos valores que desejava cultivar e sobre seu otimismo em relação aos futuros possíveis para o Centro do Rio.
1. Marina, o nome “Capioca” vem da junção de “capixaba” com “carioca”. Você pode contar um pouco sobre sua infância e sua vida em Vitória, antes de se mudar para o Rio?
Marina
Crescer no Espírito Santo foi bom, porque é menor, mais pacato. Morávamos em uma cidade na beira de uma praia calma. Acho que nossos pais são as pessoas que mais nos formam, né? O meu pai era biomédico, faleceu em 2019, e minha mãe é médica. O Espírito Santo é um lugar pequeno, mais provinciano, e meus pais seguiram o caminho esperado – o de carreiras um pouco mais tradicionais. Assim como eles herdaram dos pais deles expectativas de profissões mais conservadoras, eles também espelharam em mim e nos meus irmãos essa expectativa. O lado artístico da minha família era meio enrustido, mas ele estava lá.
Minha mãe no final de semana pegava pedaços de madeira e pintava do jeito dela. Você via que existia uma necessidade criativa, uma iniciativa, mas era guardada. Era um momento do Espírito Santo em que não tinha muitos artistas. Hoje tá surgindo uma cena cultural mais forte no estado, tem muita gente legal, mas acho que as pessoas precisam se soltar mais lá. Então cresci na praia, na beira da água, ouvindo Congo, comendo moqueca e eu tinha esse lado artístico enrustido dos meus pais que fui percebendo em mim. É isso que o “Capi” representa pra mim, do capixaba.
2. E como surgiu a ideia de criar a Casa Capioca?
Marina
Surgiu em um momento em que senti muita necessidade: esse meu lado artístico enrustido começou a falar muito alto e eu dei atenção a ele.
Meu pai faleceu em 2019. Ele tinha uma doença autoimune, pegou uma gripe, que a gente acha que já era covid-19, virou pneumonia e não aguentou, faleceu com 60 anos. Em 2020 foi a pandemia e em abril de 2020 nasceu minha filha. Tudo junto. Eu trabalhava em uma multinacional, fiz uma carreira em finanças, fui crescendo muito porque eu era uma pessoa financeira, mas que tinha um lado bem empático. Eu sabia me comunicar, sabia transformar os números em histórias, conseguia conversar com as pessoas do marketing e da comunicação, elas entendiam o que eu estava falando e aí, desse jeito, fui crescendo na área.
Aí meu pai faleceu, minha filha nasceu, eu saí de licença, mas eu ainda sentia aquele peso. Como é que vai ser voltar da licença? Voltar para esse mundo multinacional de finanças, trabalhando muito, viajando muito, com muitas responsabilidades. Você vai crescendo, tem que assinar seu nome e eu comecei a ter que participar de coisas com as quais não concordava muito.
Perdi meu pai, virei mãe, minha perspectiva de vida já tinha mudado e comecei a olhar a vida de uma forma diferente. “O que eu estou fazendo aqui?”
Eu trabalhava muito. Minha filha fez dois anos, eu engravidei de novo, saía muito cedo de casa, chegava muito tarde. Aí teve um dia em que, quando cheguei em casa, meu marido já tinha botado ela pra dormir e comentou comigo que ela tinha perguntado se eu tinha virado estrelinha. Porque ela estava entendendo essa coisa de virar estrelinha, eu já tinha contado que meu pai tinha virado uma. Quando engravidei do meu pequeno, comecei a fazer análise e nesse processo eu fui entendendo esse meu momento, essa minha mudança. Saiu uma casca e chegou uma nova Marina. Pensei: “Eu tenho que acolher essa pessoa nova que está chegando, essa mãe e mulher também.”
Quando meu filho nasceu, eu tive sete meses de licença e voltei a trabalhar sabendo que eu não ia ficar muito tempo onde estava. Voltei no Dia Internacional da Mulher, fui numa reunião em Porto Alegre e eu amamentava ainda. Lembro que saía do avião, tinha que tirar leite no banheiro do aeroporto. Passei dois dias lá com uma dor absurda. Eu tinha acabado de voltar com uma equipe de 40 pessoas e todo mundo me esperando na convenção de vendas.
Eu fiquei só dois meses nesse lugar. Eu tinha um chefe muito misógino, mas eu filtrava ele, era uma certa esponja e me enxergavam como uma salvação. Era um peso! Então, eu tinha dois filhos e já vinha nesse processo de análise. Deu dois meses e eu ia para o México na semana seguinte fazer uma apresentação gigantesca de resultados. Passagens compradas, visto tirado, apresentação pronta, aí entrei em uma reunião e esse CEO pediu para eu fazer algo com a qual eu não concordava. Bati de frente, disse que não ia fazer e pedi demissão naquela reunião mesmo.
Fui embora pra casa, chorei, fiquei chateada, ainda tinha muita emoção ali, mas me acolhi. A minha força pra pedir aquela demissão já vinha desse meu processo de análise, desse reconhecimento dessa nova casca, desse novo momento. O que é a vida, né? A vida é efêmera, as pessoas se vão, o nosso tempo é assim.
Então saí e comecei a garimpar na OLX para mim. Primeiro, garimpei uma raquete daquelas antigas de madeira. Jogava tênis, achei bonita e comprei para colocar aqui em casa. Depois vi uma pessoa vendendo essa raquete pelo triplo do preço que eu comprei. Eu falei: “Caraca, tem negócio aí!” Sou de finanças, eu já vejo o negócio.
E aí eu pensei: “Gente, se eu vender isso aqui, eu consigo pagar minhas contas.” Eu tinha um salário com o qual a nossa família contava. Então, com a minha saída, eu já precisava pedalar de novo e como iria pedalar de forma saudável, acreditando nos meus valores? Eu me prendi muito a isso.
Aí fui juntando, botei na planilha – “Dá um dinheirinho pra eu pagar as contas!” Mas como é que eu vou fazer isso? Como é que eu vou restaurar? Aí eu fui lembrando do meu pai, fui lembrando de como ele fazia – que é a história do hotel.
Minha família é de origem libanesa, passou pelos Estados Unidos e depois veio para o Brasil em 1904 ou 1905, bem no início do século. Meus familiares se instalaram em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, talvez porque sabiam que lá tinha rochas. Era considerada a Atenas Capixaba nessa época. Eles se instalaram lá e construíram um hotel com mais de 100 quartos, bem grande, Hotel Itabira era o nome. Montaram, mobiliaram tudo com peças importadas, tinham mosaicos maravilhosos, era tudo muito lindo!
Funcionou até eu fazer uns cinco anos. A família foi falecendo e meu avô, que ficou com o hotel, não era uma pessoa ambiciosa a ponto de transformar aquilo num negócio. Ele não tinha essa vontade e o hotel foi caindo. Quem sentia mais essa queda era o meu pai, porque ele cresceu naquele ambiente. Meu avô era prefeito da cidade, então ele recebia as pessoas nas salas, era super chique, amávamos ir pra lá quando éramos pequenos. Acabou que eles venderam esse hotel, virou um shopping, uma tristeza, e meu pai pegou todos esses móveis e colocou num galpão.
Ele não conseguia se desapegar daquilo. Aí a gente ia todo final de semana de Vitória lá pra Cachoeiro de Itapemirim, eram duas horas de viagem. Íamos de carro e minha mãe junto “Ah essa mesinha de cabeceira vai ficar linda aqui”, “Ah o quarto da Marina agora vai ser assim”. Ela pintava, ele restaurava, ou às vezes ele achava um restaurador. Lá tinha muita mesa com tampo de mármore, porque lá tinha as pedreiras. Eu lembro do meu pai carregando as pedras e falando para termos cuidado, porque poderia cair e machucar o pé. Lembro que ele falava que tinha que ir de bota, porque tem escorpião, tinha bicho, enfim, então eu já estava naquele mundo. Muitos anos depois, eu me vi garimpando, carregando mármore e lembrava dele falando para termos cuidado.
3. Nessa época do galpão, você chegava a participar ou era mais espectadora?
Marina
Eu era espectadora, só assistia, não tinha noção. Se bobear era até um pouco chato, voltava com o carro cheio de coisa, fazendo barulho, tinha que tomar cuidado para não quebrar nada. Era só espectadora, mas aquilo ficou.
Eu acho que eles faziam isso pelo amor ao resquício daquele hotel, da história do meu pai. Ele era biomédico, mas se preocupou muito com o meio ambiente, com o futuro, com as próximas gerações. Era membro do Greenpeace, foi secretário do meio ambiente, tinha um envolvimento muito forte, fazia cartilhas educativas para escolas – ia com a gente pra escola apresentar e eu achava o máximo. Sempre explicou a natureza para a gente, então o que fazia com os móveis também era um papel de dar valor ao que já existe.
Independentemente da lógica, da noção do reuso em termos de material, já era um cuidado geral com as coisas do mundo, né?
Marina
Isso, eram muitas coisas juntas. Era amor, era o carinho pelo mundo, o carinho pela história dele. Então eu via eles fazendo isso todos os finais de semana. O meu garimpar era pra eu relaxar – e aí, de repente, eu fiz contas, pensei que conseguiria viver disso aqui e percebi que eu estava revivendo a memória dele, e pensei “Que bom que eu tô sentindo meu pai comigo”. Foi muito forte. Ele estaria muito orgulhoso de mim.
4. Então foi rápido esse início! Quanto tempo levou para oficializar a Casa Capioca?
Marina
Foi muito rápido! Eu me demiti em maio e em junho fiz meu CNPJ, porque saiu o Reviver Centro. E aí eu falei, “Cara, eu preciso entrar nesse Reviver Centro.” Olha eu, já lá sonhadora! Só que eu não consegui, porque eu não era nada ainda.
Mas aí comecei a investir na marca, no nome, contratei a Mayra para identidade gráfica. Mas falei, “Mayra, começa com o logo, com as etiquetas, depois a gente vai para o site.” Para não me pressionar, tanto que o site só ficou pronto seis meses depois. Em outubro que lancei minha primeira coleção. Aí eu fiz o Instagram, sem ter muita experiência com mídias sociais, mas fui indo. E tudo na sala da minha casa, né? Ainda não tinha lugar, ficava tudo na sala mesmo. Meu filho de oito meses estava aprendendo a andar se escorando nos móveis.
5. E qual foi a maior dificuldade começando?
Marina
Eu sempre fui otimista assim “Vai dar certo, vai dar certo!” sabe? Mas tiveram duas dificuldades. O meu primeiro restaurador… Eu garimpei umas 20 peças, peguei meu dinheirinho ali contadinho da rescisão e coloquei para restaurar. Esse cara estragou meus móveis, todos. E aí eu chorei. Tinha uma chapeleira com uma marchetaria linda, ele escondeu ela, pintou de preto.
O meu otimismo às vezes me deixa na mão. Eu confio na humanidade, eu dou oportunidade, só que não, me dei mal. Ele levou todas as minhas coisas e não devolvia. Aí eu tinha o endereço, fui lá em Petrópolis, vi a situação dos móveis e falei que queria que ele devolvesse tudo no dia seguinte do jeito que estava.
As peças chegaram e eu precisava resolver isso. Depois achei o marceneiro que me ajuda até hoje. Esse é um cara pelo qual eu tenho carinho genuíno, é uma pessoa com quem eu tenho preocupação, com a família dele, com a mulher dele. É uma relação que eu valorizo muito. O trabalho dele, o tempo dele, a hora dele. Por exemplo, ele vinha, trazia e levava as peças. Eu virei para ele “O seu trabalho é restauro, não é o transporte. Deixa que eu levo e busco. Você tem que valorizar o seu, a sua hora. Você tem que ensinar para o seu filho. Um dos filhos está a fim de aprender, você tem que ensinar para ele. O outro não quer, beleza, deixa o outro fazer, mas esse aqui, dá espaço para ele.” E ele fala muito que tem gente que não paga. A gente paga muito direitinho, é bem organizado. Enfim, então foi ele que resolveu esse meu primeiro estoque, foi o grande problema desse início. Depois foi indo.
6. E o que você sentiu no momento em que lançou?
Marina
Eu estava muito nervosa, mas feliz, eu não tinha muitos espectadores. O tema da minha primeira coleção foi Relicário e cada peça tinha um nome da minha família, que era parte desse hotel. Tinha uma mesinha de telefone que eu chamei de Heliene, que era o nome da minha avó, que vivia no telefone. Uma mesa linda, toda frufru, a cara da minha tia Margarida. Eu acho que eu estava mais feliz pela minha família estar sendo reconhecida ali do que preocupada com a expectativa. E aí eu lancei e vendeu tudo em minutos – eram umas dez, doze peças. E aí falei “Caraca, agora eu tenho que pensar como é que eu vou entregar.” Vendeu, e agora? Preciso embalar, preciso de material. Fui dando um passo de cada vez e foi dando tudo certo.
7. Você imaginava, em algum momento, que teria seu próprio negócio?
Marina
Sim, sempre. Sempre achei que fosse – lá no fundinho. Eu queria ter uma coisa minha, com o meu jeito. Eu tive vários gestores na minha vida, uns muito legais, muita gente boa, mas eu acreditava muito que era possível ter um negócio ético de verdade, não é aquele meia boca não. Eu peguei muita coisa boa trabalhando em multinacional, aprendi muito, muitas pessoas legais, mas eu acreditava que podia ser mais legal, sabe?
“(…) estamos o tempo inteiro lidando com esses diferentes tempos. Não temos a intenção de voltar atrás e restaurar de uma forma que volte 100% ao que era, não faz sentido. Também tem essa tentativa de entender o que faz sentido para esse móvel hoje e para o futuro dele.“
8. E no dia a dia da Casa Capioca, como é trabalhar com tantas camadas diferentes do tempo?
Marina
A maior parte é móvel, mas tem coisa que eu não consigo me segurar e compro. Então vamos do móvel, a luminária, quadros, abajur – temos de tudo.
Cada móvel é de uma época, de um estilo, vários tipos diferentes, não temos muita restrição. No olho, já sabemos de onde é, de que época, conseguimos imaginar a história da peça. Tentamos nos adaptar às diferentes épocas ao máximo possível. Por exemplo, uma peça mais anos 70 pede um tecido diferente do que uma peça da década de 20. Cada peça tem uma característica, e temos que lembrar que ela precisa se encaixar no apartamento, na casa de hoje, que não é a de antigamente.
Então estamos o tempo inteiro lidando com esses diferentes tempos. Não temos a intenção de voltar atrás e restaurar de uma forma que volte 100% ao que era, não faz sentido. Também tem essa tentativa de entender o que faz sentido para esse móvel hoje e para o futuro dele. Olhamos a época, o molde, o formato da peça, por exemplo, aquele pufe ali, ele tem o pé bolinha – legal colocar um tecido que tenha um pouco desse jogo, da circunferência. Outro exemplo, aquela peça ali, ela já tem um alumínio, ela tem uma madeira – se eu colocasse uma estampa seria muita informação, aquele verdinho ali dá uma leveza. Como fazer aparecer esses materiais que têm mais valor?
9. E com esses muitos materiais, vem também a construção dessas muitas diferentes parceiras com restauradores, né?
Marina
Temos vários restauradores, e é o grande desafio do nosso trabalho. Tem o cromador, tem o empalhador… Tem peça que precisa passar por três diferentes, pelo cromador, pelo empalhador, pelo marceneiro. Então essa logística é o grande valor do nosso trabalho.
Imagina: estamos coordenando de 100 a 150 peças – então eu tenho 100 peças em restauro, 100 peças em entrega para os clientes, tem as peças que eu estou garimpando agora, são vários momentos. Peças disponíveis, peças que já saíram. Então essa coordenação é muito complexa. Eu sempre lembro pra Malu que é um negócio de logística também.
Para o resto acontecer, essa base tem que estar funcionando. Quando a gente se identifica com alguns fornecedores, quando nossos valores batem, a gente pega essa pessoa, agarra e não solta. É desde o transportador… aquele cara que veio aqui é o Jean. A gente conheceu ele pelo Lalamove. “Jean, você é bom, você é bom, cara, quero seu celular, vamos continuar falando.” Então a gente já tem o Jean e, como o Jean, eu tenho outros.
Marceneiro, eu tenho um que é o principal, mas eu tenho outros. Eu tenho uns caras fiéis que podem contar comigo quando eles precisam também. A gente valoriza – demonstra a valorização pagando bem. Tem gente que às vezes vai comprar uma peça, “Poxa, achei caro” e eu falo, cara, isso é a valorização de um trabalho que não tem mais.
Me deu trabalho para achar essa pessoa e ela tem que ser valorizada. Se alguém acha uma Thonet é cara: me deu trabalho restaurar a palha, a madeira, soltar, colar tudo de novo. Eu tenho que valorizar esse trabalho.
10. E aqui dentro da Casa Capioca, você começou sozinha, na sala de casa, e hoje conta com uma equipe. Quem são as pessoas que tocam hoje com você?
Marina
Tudo começou com o Ivan, ele foi a primeira pessoa. Quando eu fazia lá na minha casa, logo que vendi a primeira coleção, eu que embalava e ficava semanas embalando. Eu botava roupa de academia, saía suada, era um trabalhão, minha casa ficava um caos, cheia de papelão, mas eu embalava tudo bonitinho. Os transportadores sempre me elogiaram: “Nossa, você embala bem.” Só que chegou um momento em que o volume foi aumentando, eu precisava de alguém pra me ajudar a embalar, porque as peças começaram a ficar pesadas.
E aí veio o Ivan, foi ele quem fez a embalagem da minha mudança, da minha família. Pensei: “Esse cara é bom, deixa eu pegar esse cara bom aqui.” O Ivan é a pessoa mais comprometida do mundo, ele mora há mais de duas horas daqui e chega pontualmente. O que eu fazia em uma semana, ele faz em 10 minutos. É impressionante, existe uma expertise nisso, é uma arte. Ele pensa em tudo na hora de embalar e fica muito mal quando algum acidente acontece. E é isso, semana passada ele precisou se ausentar para resolver uma questão pessoal dele e eu “Cara, vai!” É uma relação de amizade, sabe? Eu acho que é sim possível. Confiança total dos dois lados.
Aí depois veio a Fê. Estava recebendo muitas peças, não estava dando conta desse direcionamento dos garimpos, mas aliada à logística tem a necessidade de cada peça. Então era um perfil muito específico, uma pessoa que tinha que ter um olhar artístico e que ao mesmo tempo fosse mão na massa de resolver a logística. Quando ela veio, eu falei “Meu Deus, é uma benção isso.” Ela ainda chegou com flores! Já era cliente da Casa Capioca, já tinha comprado uma poltrona Gelli vermelha.
Fernanda [na mesa ao lado]
Eu acompanhava a Casa Capioca, amava o negócio e foi muito surpreendente quando apareceu a vaga. Eu tava num momento de transição de carreira também, vi a vaga e tinha muito a ver comigo.
Marina
Aí ela me mandou um WhatsApp. Eu tinha feito milhares de entrevistas, ela foi uma das últimas. Eu acho que você viu e sentiu que saberia fazer isso.
Fernanda
Muito, muito, muito louco. Eu olhei para a vaga e pensei: faz muito sentido com o que eu já vivi, com o que eu posso oferecer pra Casa Capioca. E em um ambiente com tudo que eu amo. Vintage, trabalhar com criatividade, fazer escolhas para as peças.
Marina
Por exemplo, acabei de trazer esse espelho. Ele é uma peroba que tá com verniz Asa de Barata, que dá uma avermelhada. Antigamente, isso tinha valor. Hoje eu quero a peroba aparecendo. Você consegue ver que é uma madeira maciça, que ela é sedosa, tá vendo? Então, é uma pessoa que fala: “Não, tá em bom estado, vamos vender assim, não vamos encarecer com o restauro, não vamos perder tempo.” Tem que enxergar um pouquinho além e não ter preguiça. Porque o tempo inteiro é peça chegando, peça saindo, é um espaço vivo, movimento o tempo inteiro.
Fernanda
Você falando de eu ter chegado com flores. Foi muito engraçado, porque quando você me chamou pra entrevista presencial, eu falei: “cara, vou levar flores.” Depois parei pra pensar “Não, mas eu vou pra uma entrevista, eu vou levar flores?” Me bateu aquela dúvida, mas só decidi, vou levar flores sim. Eu acho que é isso que surgiu, essa afinidade, essa cumplicidade que é genuína e que ficou clara desde o primeiro minuto.
Marina
É, sem máscaras. Então as pessoas foram surgindo de acordo com a necessidade. Entrou a Malu e agora vai chegar a Isa. Há dois anos atrás, quando eu contratei a Fernanda, junto com ela, foi a pessoa que eu mais gostei na entrevista. Eu tinha amado a Isa, achava que ela seria importante, mas não naquele momento, a Fernanda ia preencher mais. Só que fiquei com a Isa na minha cabeça. Quando eu abri a vaga, eu falei, “Isa, eu vou abrir essa vaga, vamos falar de novo?” E pronto, está aí.
11. Onde acontece atualmente o processo de garimpo na Casa Capioca? Em geral, são peças encontradas no Rio ou também vêm de outras cidades e estados?
Marina
A gente começou só na cidade do Rio, porque o frete impacta no custo. Eu tenho uma preocupação com o preço final. Uma peça muito cara, que vai demorar pra sair, não faz sentido. A intenção é sempre o giro. Eu preciso girar, eu preciso botar no mundo. Se eu fosse garimpar longe, teria o custo do frete, geração de mais poluição, tenho essas contas na minha cabeça.
Só que a gente foi crescendo e aí eu fui abrindo umas exceções. Então eu garimpo de alguns lugares em Petrópolis, a Serra Fluminense tem muita coisa, aqui no Rio também tem muita coisa, interior de São Paulo. São Paulo tem muita coisa modernista porque bombou nos anos 70. As peças aqui são menos, é mais Brasil Império, assim. São épocas e tipos de mobiliários diferentes. A gente também tem Tiradentes, Minas, essas peças rústicas, um banco desses é a coisa mais linda do mundo. Mas é isso, hoje eu abri um pouco mais, mas eu tô sempre atenta, para aproveitar a vinda de um caminhão, colocar mais coisa porque também tem um custo de meio ambiente aí.
12. E quais são as etapas desde o momento em que vocês encontram uma peça até ela chegar à casa de um cliente?
Marina
Vamos dar um exemplo. A gente recebe muitas mensagens. Fazem uns vídeos horríveis, mas eu consigo identificar o que quero. E eu não tenho medo de restauro – eu encaro, restauro o que for. Pergunto quanto a pessoa gostaria de ganhar – eu não faço sugestão de preço, às vezes a pessoa tem um número na cabeça, eu vejo se faz sentido e aí a Malu faz a coordenação da coleta. Ela chama o transportador de confiança nosso, a peça chega aqui e a gente avalia. A Fernanda faz essa avaliação de para onde vai cada peça. A ideia é que a gente não leve nem 24 horas pra fazer esse direcionamento. Chegou, registramos – porque se não eu me perco, eu tenho que ter um inventário – e decidimos para onde vai, controlamos onde ela estará. Madeira vai pra X, cromado vai pra Y, luminária, palha, pintura, ferro… cada peça vai pra um lugar, é uma loucura. E às vezes vai de um lugar pro outro também – da marcenaria para o empalhador por exemplo. A gente coordena tudo bem controlado. Essa minha raiz financeira nos ajuda.
E por exemplo, o que pagamos aos nossos restauradores, nós que controlamos. Porque eles não têm controle, não conseguem, não têm essa habilidade de organização, de planilha. Eu não quero ganhar só porque eu tenho controle. Eu vou ajudar, sentamos para ver as planilhas – ver se está tudo certo, ver se está batendo. Eles geralmente têm uma memória boa, mas tem coisas que escapam.
Aí coletamos com os restauradores. Chegou, a gente dá ok pra venda. Quando a peça tá ok pra venda, a gente soma todo o custo que ela teve, inclusive desses transportes, e aí coloca uma margem que é saudável pro nosso negócio, pra todo mundo viver razoavelmente bem, pra gente crescer um pouquinho, mas nada injusto e estratosférico. Eu tenho muito essa preocupação. Eu trabalhei em um negócio que colocava aumento de preço loucamente e eu não tenho esse perfil, é natural, é aquela coisa minha sabe? “Não, mas se você quiser, você pode colocar (um valor mais alto)” Não quero, não tô afim, entendeu? Então é isso.
A gente vai juntando um monte de ok pra venda e monta uma coleção. Por que a gente faz coleção? Porque é uma operação saudável, eu tenho tempo para garimpar, restaurar e fazer as entregas. Tá tudo certo para venda? Aí juntamos na coleção. Fazemos as fotografias, colocamos no mundo, colocamos para vender e aí tem o próximo passo da logística que é a saída das peças.
Fazemos entregas com transportadoras em que a gente confia muito, conquistamos uma relação legal. Os caras vêm aqui para a coleta da transportadora, bebem café, vão ao banheiro, é um ponto onde eles também se sentem à vontade e que a gente valoriza pelo trabalho deles. A gente tem o contato do caminhoneiro, não é só da transportadora.
13. A Casa Capioca está abrindo seu novo espaço e, desde o primeiro, você escolheu se localizar no Centro. O que te trouxe para cá e como foi essa decisão?
Marina
Eu estava com os móveis todos na minha sala, subindo e descendo, comecei a dar umas esbarradas no elevador, e o síndico, com toda a razão, começou a reclamar. Então percebi que precisava sair dali.
Cheguei a olhar Botafogo, a olhar outros bairros, mas os valores de aluguel eram surreais para um negócio que estava começando, achava injusto. Eu fico com pena dos negócios que abrem e já têm que começar com esse custo alto inicial. Eu falei: eu não vou ter fôlego. É muito duro começar um mês com menos de 30 mil reais, era um negócio exorbitante. Eu precisava achar um lugar que coubesse no meu bolso.
E aí eu comecei a andar pelo Centro e na época, pós-pandemia, tinha muita placa de aluguel aqui nos sobrados, mas nada anunciado online. Então dei muitas voltas a pé, tirando foto de vários aluguéis com telefone, eu e meu marido também de carro, um sábado e um domingo inteiro. Com as fotos da rua, fui registrando no Excel, ligava, perguntava e achava tudo muito caindo aos pedaços – eu teria que fazer muita obra e não tinha dinheiro para isso. Vim visitar o segundo andar do primeiro sobrado que está aqui na esquina, não curti, tinha cozinha e teria que fazer obra. Mas vim andando nessa rua aqui e vi um aluguel que eu não tinha visto antes. Tirei foto, mandei mensagem e o cara me respondeu muito rápido. Um aluguel no preço bom, não precisava fazer obra e eu falei: “É isso.” Eu já conhecia essa área, trabalhei aqui na L’Oréal, trabalhei na Wilson Sons, eu já tinha vivido aqui antes, me senti em casa.
14. Nos conta um pouco mais sobre a região? Como ela estava quando você chegou em 2023 e como você vê ela agora?
Marina
Eu acho que o Centro como um todo está revivendo, vejo um coração pulsando mais forte aqui. Principalmente por conta dessa cena cultural que está surgindo. Não tinha nada nessa rua aqui. Estava tudo vazio, muita gente dormindo na rua, mas eu não me sentia em perigo. Agora tá mais vivo, tá mais cuidado. Ainda falta, mas negócios legais estão começando a ocupar. Então veio a Mari da Tapilogie, o pessoal da Cabiúna. São espaços que uma pessoa que tem um trabalho artístico valoriza. Esse sobrado aqui onde a gente está hoje era um escritório e tem muito mais valor assim. E eu conseguia ver. Então o artista olha um sobrado, ele acha lindo, ele vê potencial. Eu tenho a expectativa de que vai começar a melhorar, estar ainda mais vivo.
15. A Mari Wakim conta que foi a partir da amizade de vocês que ela encontrou o primeiro espaço carioca para a Tapilogie, no andar acima desse antigo espaço da Casa Capioca. Os projetos de vocês se complementam e, ao estarem próximas fisicamente, parecem se fortalecer ainda mais. Você pode contar um pouco mais sobre essa parceria? Como tem sido crescer tendo uma à outra por perto?
Marina
Nossa, isso faz muita diferença. Ela e eu fizemos faculdade juntas. Eu fui para um caminho de multinacional, ela também foi e depois lançou a Tapilogie. O negócio dela me inspirava. Eu não tinha o meu negócio ainda, mas eu achava aquela coisa linda, corajosa e bela. Eu admirava, era uma inspiração pra mim. “E se eu abrisse um negócio, mas de outro jeito?” Eu ficava confabulando, sonhando. Quando bateu a ideia de ter a Casa Capioca, eu mandei mensagem pra ela na hora, “Amiga, o que você acha?” Ela me deu muita força: “Vai fundo, vamos juntas!” Foi me dando dicas e de forma totalmente genuína, querendo me ajudar. Eu fiquei muito grata por essa abertura dela, por ela me incentivar.
E aí ela, no momento da vida dela que se mudou de São Paulo pra cá de volta, ela que veio pedir minha ajuda. Assim, muito bonito. Eu falei, eu preciso te receber de braços abertos, eu vou fazer tudo.
Ela tinha um dia para resolver um monte de coisa aqui no Rio, do apartamento que ela ia morar com a família, do lugar que a Tapilogie ia ficar… Aí ela veio na Casa Capioca e eu falei, “vou te mostrar o andar de cima, mas assim, sem muita pretensão”. Eu não sabia se ela ia gostar ou não. Ela chegou, abriu a porta, viu os janelões e ela: “Uau, é aqui!” E ela se sentiu segura pelo fato de estarmos juntas ali, eu também. A gente tem muita troca. Todos os desafios que temos são os mesmos – de negócio, de rede social, da comunicação com o cliente – são os mesmos pontos. É muito bom a gente trocar e incentivar uma à outra. Agora, ela viu esse lugar novo e falou assim: “Marina, será?” Eu falei: “Será?! Vai! Você ficou encantada, seus olhos brilharam, vai, vai dar certo, faz proposta!” A gente se empurra.
16. Se você pudesse imaginar um futuro para a região onde vocês estão localizadas, o que gostaria de ver acontecer aqui?
Marina
Nossa, eu sonho muito com isso. Eu sonho com esses sobrados com artistas, vários outros mobiliários vintage, concorrentes, amigos. Eu acho que tem espaço para todo mundo. Eu sou muito da pegada de: quanto mais gente restaurando e dando vida a peças que já estão aqui no mundo, melhor! Muita gente me pede dicas para abrir negócio, eu ajudo, sabe? Eu quero essa rua aqui linda. É uma rua segura… eu aposto muito nisso aqui.
17. E falando do que atualmente existe na região do Centro, que projetos, negócios ou lugares você mais gosta de frequentar, apoiar ou passear pelo bairro? Ou que gostaria que mais pessoas frequentassem e apoiassem?
[indicações com descrições e comentários da Marina no mapa abaixo]
Usamos a Bibliomaison, que fica no Consulado Francês, para o planejamento da Casa Capioca. É um lugar que inspira, tem calma, tem um restaurante. A gente sai um pouco da operação e tem um visual lindo. Eu morei na França e admiro muito o olhar do francês para o belo. Então inspira, a gente também tem que valorizar isso.
A Livraria Leonardo da Vinci eu acho uma graça. Eles resistiram à covid-19. Foi um lugar que me inspirou a fazer uma coleção nossa, a Epifania.
Tem a Casa Paladino, que existe desde 1906. Fica nessa área portuária. Meu primeiro trabalho era relacionado à importação e exportação, e o pessoal que trabalhava no porto se encontrava — e ainda se encontra — na Casa Paladino. É um lugar famoso pelas fritadas. Não é um lugar impecável, mas você sente muita história ali, naquela esquininha, do mesmo jeito.
Um lugar que eu acho muito especial e por onde passo no caminho para cá é o Albamar. Ele está fechado agora, mas aquela vista é linda. Era uma das quatro torres de um mercado. Demoliram tudo e deixaram só uma. Tem vista para a Ilha Fiscal. Acho um lugar muito especial.
A Praça XV, no meio da semana. No fim de semana também é ótima. Gosto de andar por aquelas árvores lindas e pelo Paço Imperial.
Tem um lugar muito operacional para a gente, que eu acho muito bom, o Palácio das Ferramentas. Fica aqui no Centro, na Rua Senhor dos Passos, e tem tudo o que você imaginar. A gente precisa de qualquer coisa, tem lá. É enorme.
O Edifício Galeria, construído para abrigar a sede da Companhia Nacional de Seguros de Vida Sul América, fica na Rua do Rosário. É um prédio antigo que foi restaurado. Ali dentro tem o Coffee Five, uma boutique de café. Eles foram eleitos os melhores baristas do mundo. O café é incrível.
18. Pensando na sua relação com a cidade do Rio e com o Centro, qual você diria ser a sua esquina?
Marina
Minha esquina é um lugar pelo qual eu estou muito apaixonada. É o Posto 6, ali, em Copacabana. Tem os pescadores, tem uma pracinha onde os eles ficam, as gaivotas que pegam os peixes, os barcos, eu me sinto num balneário, estou muito apaixonada. E eu estava com planos de sair do meu apartamento pra ir morar numa casa, sonho que eu também sempre tive. Só que pra morar em casa aqui no Rio eu tenho que sair de perto da praia e eu tô com muita pena de perder essa minha esquina. É um privilégio. Ali tem um café legal, o Brisa. Então hoje a minha esquina é essa, eu tô apaixonada por ali.
Sabe o que eu amei? Foi a mesma esquina da Mari.
Marina
Jura?! Cara, olha só, eu e a Mari temos uma conexão, constelação familiar. Porque a nossa família é libanesa também, deve ter vindo no embarco, na mesma época. Os familiares dela chegaram também no Espírito Santo. Muito, muito, muito legal!
Lugares, negócios ou projetos que gosta de frequentar e apoiar
Rio de Janeiro, Centro
01 Tapilogie
R. Candelária, 92 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-020
02 Bibliomaison
Avenida Presidente Antônio Carlos, 58
03 Coffee Five
Rua da Quitanda, 86 - quiosque 01 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-902
04 Casa Paladino
Rua Uruguaiana, 224 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20050-092
05 Cabiúna
R. Candelária, 92 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-020
06 Albamar
Praça Mal. Âncora, 184 - Centro - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20021-200
07 Palácio da Ferramenta
R. Sr. dos Passos, 23 - 160 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20070-022
08 Livraria Leonardo da Vinci
Avenida Rio Branco, 185
09 Govardhana Hari
Rua Rodrigo Silva, 6 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20011-040
10 Feira de Antiguidade Praça XV
Praça XV de Novembro
11 Posto 6 (Copacabana)
12 Brisa Café Posto 6
Av. Atlântica, 4206 - Copacabana, Rio de Janeiro - RJ, 22070-002