Mariana Wakim

Com seus tapetes garimpados, entre mudanças e novos começos

Rio de Janeiro

Design, Cidade

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Texto por Maria Vitória Martins
Fotografias por Leila Viegas e Pyetra Salles

Enquanto a busca constante pelo novo segue celebrada, Mariana valoriza a passagem do tempo com a Tapilogie, sua curadoria de tapetes vintage. Garimpar já era uma paixão antiga que transbordou e se tornou negócio. Hoje trabalha com o desejo de fazer circular peças únicas, somente tapetes feitos à mão e com fibras naturais.

Leitora voraz, engajada em suas convicções e apoiadora dos comércios locais, conta como sua relação próxima a seu entorno a fez repensar onde queria morar ao se tornar mãe. Depois de oito anos em São Paulo, retornou ao Rio e encontrou espaço para a Tapilogie no centro da cidade. Na época da conversa, ela desejava se mudar para um espaço maior para receber suas freguesas e fregueses. Seis meses depois, ela abre as portas em seu novo endereço. A oportunidade desse novo espaço surgiu a partir do encontro com o Antônio Maurício, da Cabiúna – uma conexão criada pelo Esquina.

Conversamos sobre os percursos que a levaram a criar a Tapilogie, o seu entusiasmo pelo que faz e os vínculos que estabelece com os lugares que fazem parte do seu cotidiano.

1. Mari, me conta um pouco sobre você e sobre a trajetória da Tapilogie?

Mariana
Então, eu trabalhei em vários lugares antes. Me formei em relações internacionais e, na época, em 2010, você saía da faculdade e esperavam que você fosse trabalhar em uma empresa grande, fazer carreira, e foi exatamente o que eu fiz: trabalhei na Vale, no financeiro. Depois, trabalhei no governo do Estado do Rio com relações internacionais como gerente de projetos, época em que eu surfei um pouco a onda dos grandes eventos que aconteceram no Rio. Eu amava! Por fim, fiquei quatro anos e meio trabalhando nos Jogos Olímpicos. É o máximo, tanto que meus amigos continuaram, foram para outros lugares do mundo. Nessa época decidi que eu não queria continuar fazendo isso, porque eu não queria ficar me mudando tanto. Mas, ao mesmo tempo, também queria sair do Rio. Achei que depois de 2016, os eventos se esgotaram, e eu não sentia que tinha algo a mais para acontecer na cidade.

Então fui morar em São Paulo. Eu queria muito trabalhar no mercado de startups, queria entrar no mercado de tecnologia, achava que era isso que estava acontecendo naquele momento. Coincidentemente, eu consegui um trabalho no Enjoei.

E aí, um corte para minha relação com o Enjoei: eu sou garimpeira, desde sempre. Muito antes de ser moda, eu já comprava e vendia muitas coisas no Enjoei. Lembro da primeira vez que eu vendi na plataforma, em 2014. Lembro dos meus primeiros garimpos em 2012, quando eu fui trabalhar em Londres para as Olimpíadas, indo em brechó. Lá era uma coisa muito maravilhosa e aqui ninguém falava sobre isso. E aí, quando o Enjoei surgiu, em 2014, foi “Nossa, que incrível finalmente vou poder vender as minhas coisas”.

Em 2017 consegui um trabalho na empresa. Então foi incrível poder finalmente trabalhar com algo que eu realmente gostava na minha vida pessoal. Antes meu trabalho era muito corporativo. Eu gostava, trabalhava para pagar minhas contas, mas nunca tinha tido um encontro de afinidades como eu tive no Enjoei. Fui para começar do zero um projeto novo, o Enjoei Pro. Mandamos e-mail pras clientes, elas começaram a nos mandar bolsas de roupa e começamos a categorizar as peças em caixas. Fizemos o produto digital e começou a rodar do zero. Foi a primeira vez que o Enjoei teve um estoque de fato, um estoque de peças únicas.

Então, para mim, foi muito rico trabalhar lá. Eu já gostava muito de garimpo e lá vi como que isso se operacionaliza. Como você coloca peças únicas à venda, como você valoriza e explica elas. Foram três anos e, no final, eu estava cansada do corporativo “raiz”. O escritório mudou para a Faria Lima, o que eu não achava que tinha muito a ver com a empresa, o trânsito, era uma confusão. Entre o final de 2019, início de 2020, pré-pandemia, eu já estava assim “cara, eu não quero mais ir para nenhum escritório.” Foi quando comecei a conversar com uma empresa, uma consultoria de transformação digital, que já era remota há quatro anos. Em janeiro de 2020 fui trabalhar com eles achando o máximo, adotei o meu cachorro, trabalho de casa, maravilhoso. No início foi muito estranho, porque ninguém trabalhava de casa, né? Então eu ficava meio solitária, meu marido saía e eu me perguntava, é isso mesmo? Aí em março veio a pandemia.

Você foi basicamente precursora.

Foi uma loucura, assim, muito alinhada com esse espírito do que ia acontecer. Mas depois de um tempo comecei a sentir muita falta de continuar trabalhando com o vintage, sabe? No Enjoei eu também fazia a parte digital, mas recebia as peças das clientes, tinha um aspecto físico no meu trabalho, era do produto que eu gostava.

Entramos naquele ritmo louco pandêmico de ficar 12 horas trabalhando em casa, parecia que o fim do mundo ia chegar. Nesse momento comecei a voltar para o processo pelo qual passei no final de 2019, “cara, não quero mais isso aqui.” Não queria mais esse meio corporativo, mesmo estando em casa, era igual. Eu entrei num processo de mentalizar que eu não queria isso. Mas sem nenhum projeto em mente. Comecei a sentir que precisava extravasar a minha criatividade, fazer coisas que eu gostava. Escrever um texto no Medium, tirar fotos bonitas, sei lá.

Nesse momento, comecei também a garimpar muitos itens para a minha casa. Online mesmo. Eu gosto muito de leilões. Precisávamos mudar os tapetes de casa, ter tapetes legais. Como eu sempre faço com móvel, com qualquer coisa que eu vou garimpar. Eu sempre achei isso muito foda, mil origens diferentes, mil estilos diferentes. Procurando o que eu queria pra mim que eu comecei a entender um pouco mais dos tapetes e percebi que não tinha ninguém vendendo tapetes na internet. Somente num formato muito antigo, em lojas muito grandes ou dentro de antiquários muito tradicionais. Mas não via ninguém falando especificamente sobre tapetes. E eles são revolucionários na decoração, trazem muita personalidade. Eu acho que é o que diz se você tem uma casa estilosa ou não, é o seu tapete. E aí eu falei para o meu marido, vou começar uma loja de tapetes. Aí ele falou, faz. Assim mesmo. A gente nunca tinha falado sobre isso e ele respondeu de bate-pronto. Decidi então pensar em fazer de uma forma muito simples. “Eu vou fotografar os tapetes aqui na minha casa, e os tapetes vão ser legais, vão ser fotos bonitas. Se ninguém comprar, tudo bem, entendeu? Eu quero fazer isso pra mim.” Meu marido é designer e juntos pensamos no nome, a marca, o brand book, tudo que usamos até hoje.

Comprei 20 tapetes e fizemos as fotos na minha casa. A minha ideia era mostrar que esses tapetes funcionavam em decorações contemporâneas, você pode ter no seu apartamento na Santa Cecília um tapete desse, fica super legal, então eu queria mostrar isso.

Tirei as fotos, criei um Instagram e divulguei para minha rede de amigos. Meus amigos foram incríveis. Eles começaram a me repostar muito. Muito além do que eu imaginei, acho que as pessoas realmente acharam diferente. A partir dessa rede começaram a aparecer outras pessoas. Vendi os primeiros 20 tapetes e fui atrás para comprar mais. Eu comprava, tirava foto, postava e esgotava. Aí fui comprando mais.

2. No início, qual foi a maior dificuldade em tornar o projeto realidade?

Mariana
Eu acho que esse início você vai meio em um embalo, ainda é pequeno. As dificuldades vão surgindo quando você tem que começar a formalizar mais o negócio. No início, eu era muito a mão na massa. Eram esforços que eu já fazia, trabalhei com eventos, também lá no projeto do zero no Enjoei. Para mim era muito natural, eu embalava os tapetes, fazia as caixas, ia no correio, botava no meu carro, ia buscar no cliente, eu movimentava isso tudo. Só que chega uma hora que você percebe que não dá mais para ser assim. Eu acho que as dificuldades, para mim, vieram a partir do momento que eu não podia mais ser essa pessoa mão na massa 100%. Tem que ter um site, tem que ter um CNPJ, toda a parte burocrática…

3. Como é trabalhar somente com peças únicas?

Mariana
Eu acho que uma das coisas difíceis de trabalhar com peça única é a frustração das pessoas. Depois de quase cinco anos isso já melhorou, as pessoas entendem melhor.

Quando eu comecei, as pessoas me xingavam. Sem entender que era uma peça única, uma peça única abaixo do preço do mercado. Tem todo um trabalho de construção de marca. Ainda chegam algumas pessoas frustradas, mas é em menos quantidade.

Garimpar, é difícil. Você não tem noção do que eu faço pra conseguir esses tapetes. Meu backstage é uma loucura. Chegam alguns que eu não posso vender, que eu preciso descartar. Tem que restaurar, tem muita poeira, tem muita sujeira. Garimpar não é fácil. Se você quiser montar uma casa com peças garimpadas, você vai ficar até uma hora da manhã num leilão. Não vai conseguir o que deseja porque vai ter alguém com mais dinheiro do que você. Você vai chegar em um lugar e não vai ter o tamanho exato que você quer. Você vai ter que ir em vários outros lugares. Quando colocamos um modelo um pouco mais simplificado – o site, com fotos, medidas, possibilidade de parcelar, o tapete limpo para chegar direto na sua casa – , faz parecer que o processo é fácil, mas não.

Muita gente agora começou a vender nesse mesmo modelo. Uma amiga minha, [a Marina da Casa Capioca] que está no mesmo sobrado aqui comigo, vende móveis da mesma forma.

4. Você sempre teve vontade de criar seu próprio negócio?

Mariana
Nunca pensei. Meu pai é empresário desde os 26 anos. Ele só teve um emprego. É uma vida muito de altos e baixos, de momentos ótimos e de momentos difíceis. Ele é uma pessoa com uma insônia crônica. Acompanhando o estresse e a pressão, eu pensava que de jeito nenhum queria isso para mim. Sairia por aí com meu currículo, qualquer coisa iria para outro lugar levando ele. Tanto que eu sou uma pessoa conservadora no meu negócio. Então nunca tive essa vontade, porque eu tinha esse exemplo na minha casa. Mas ele estava feliz, realizado no propósito dele. Nunca seria feliz trabalhando 30 anos num banco. Comecei a entender melhor agora que eu tenho o meu negócio. A entender que, de fato, ele estava feliz com o que ele estava fazendo, apesar dos perrengues. Que é essa coisa meio dúbia, né. Foi quando eu comecei a Tapilogie, algo que aconteceu meio que por acaso, que vi de fato o que era isso. Eu estava em caixas que não me cabiam e, finalmente, eu pude ser livre. Antes eu achava que eu queria ter uma vida estável, mas, de fato, a liberdade de poder fazer uma coisa sua suplanta toda a estabilidade que você pode ter. Acho isso agora, analisando em retrospecto.

5. A Tapilogie é majoritariamente desenvolvida por você, certo? Há mais pessoas envolvidas? Com quantos colaboradores você conta hoje no processo como um todo?

Mariana
Trabalho com uma fotógrafa e produzo vídeos com freelancers recorrentes. Eu gosto muito dessa parte da imagem e de trabalhar com pessoas muito especialistas. Então, por mais que eles não estejam na minha folha de pagamento, é uma parceira fixa. Fazemos toda semana foto, vídeo e produção de imagem.
Já na parte operacional, inicialmente eu fazia tudo sozinha, mas tem uma parte de carregar muito peso – para manusear os tapetes, abrir para fazer fotos, para mostrar para um cliente. Cheguei a conclusão de que dava mais para fazer sozinha. Então hoje tenho duas pessoas fixas de administrativo e operacional. Mas a parte do Instagram, do conteúdo, sou eu que faço. Então é bem enxuto, eu acredito nesse formato – enxuto mas trabalhando com profissionais muito especialistas no que fazem.

6. E conta um pouco sobre a rotina de lançamentos da Tapilogie? Como você chegou nesse formato?

Mariana
Foi intuitivo. Eu garimpava, chegava na minha casa, fotografava, postava e vendia. Garimpava, fotografava, postava e vendia. Comecei a pensar que as pessoas precisavam entender o que estava acontecendo aqui para se programarem. Precisavam poder falar comigo, saber a medida, trocar ideia, mandar áudio, pedir vídeo para entender o estado da peça. Então comecei a planejar que tudo que chegasse eu iria mostrar um dia antes, com as medidas, as fotos e os defeitos, abrir pra trocar ideia com os clientes e colocaria à venda no dia seguinte com o horário marcado. Hoje, isso acontece todas as quinta-feiras às 11 da manhã. Foi uma forma de ser justa nesse aspecto da peça única. Não tem um estoque gigante. Então o fato de as vendas serem em um dia e em um horário marcado fez com que eu também tivesse um dia específico para logística. Também me facilitou para contratar pessoas, para concentrar tarefas e planejar a rotina. Enquanto estou vendendo, também tem peças restaurando, outras entrando e outras saindo, então é um ciclo contínuo. Tudo funcionou e foi intuitivo pelo processo mesmo.

“Tem que restaurar, tem muita poeira, tem muita sujeira. Garimpar não é fácil. Quando colocamos um modelo um pouco mais simplificado – o site, com fotos, medidas, possibilidade de parcelar, o tapete limpo para chegar direto na sua casa - , faz parecer que o processo é fácil, mas não.”

7. Você é uma leitora voraz, também ouvinte assídua de podcasts e espectadora atenta de séries e filmes – amo acompanhar suas indicações. Você lembra de algum livro, filme ou episódio de podcast que, de alguma forma, possa ter mudado seu olhar sobre sua vida ou o seu trabalho?

Mariana
Quando eu li a sua pergunta, eu fiquei pensando que naquele momento, antes de criar a Tapilogie, eu estava com essas reflexões sobre o modo acelerado de vida que estávamos vivendo. Aí lembrei de um Instagram que se chama Desacelera São Paulo, muito legal! A Michelle produz conteúdos só sobre isso, tinha um mini documentário no YouTube que falava sobre discussões mais nesse sentido já em 2019, 2020, sobre desacelerar e repensar a vida mesmo. Eu não estava mais vendo sentido na minha rotina. O fato de eu ter tido a ideia da Tapilogie foi porque eu não estava numa rotina frenética de deslocamento. Eu acho que as coisas vêm quando a gente consegue um pouco mais de calma. Eu não consigo imaginar ter uma ideia como a Tapilogie na vida que eu tinha antes da pandemia. Enfim, eu lembro do que me impulsionou com esses questionamentos sobre desacelerar. Não que eu não seja acelerada hoje em dia. Estamos sempre, né? Trabalhando, fazendo mil coisas, mas hoje sou muito diferente da pessoa que eu era antes. E eu gosto muito de podcasts de notícia, de política, e escuto muitos, acho que uns quatro a seis por dia. Eu gosto muito de histórias, de narração, de histórias da vida das pessoas como a Rádio Novelo. Eu escuto um podcast francês também. Gosto muito, muito de histórias. Então, se eu não estou vendo uma série ou não estou lendo um livro, eu estou ouvindo um podcast, sempre.

8. E como foi para você a decisão de voltar de São Paulo para o Rio?

Mariana
Eu fiquei oito anos em São Paulo. Fui em 2017, com 26 para 27 anos, e, naquele momento, fazia muito sentido para mim ir. Eu achava que não tinha mais nada para mim no Rio e, quando eu cheguei em São Paulo, amei. Se você está a fim, a cidade te recebe. Não acho que isso seja verdade no Rio. Aqui ainda existe uma coisa mais bairrista. São Paulo é uma cidade totalmente cosmopolita. Eu amei a experiência de trabalho, o profissionalismo das pessoas, a seriedade das coisas andarem, sabe? Eu gostei muito disso e fiquei muito feliz. Achei que eu não ia mais voltar. Conheci meu marido, a gente comprou um apartamento e reformou com a ideia de ficar para sempre.

E, assim, eu não tinha um desejo muito pulsante de ter um filho, mas estava ali hipoteticamente como algo que poderia acontecer. Com o meu marido, deu uma vontade em determinado momento e quando meu filho nasceu, não sei explicar, mas São Paulo não fazia mais sentido para mim. Eu acho que a maternidade foi para mim um grande retorno às raízes. Eu não sabia maternar em São Paulo, porque eu acho que ser mãe tem a ver com a sua conexão e as suas referências de infância, de vida, de parentalidade. Eu não tinha nada em São Paulo relacionado a isso. Todas as minhas referências eram aqui no Rio. Eu achava que criança tinha que estar na natureza, ver o céu. Falando sobre bairro, apesar de Pinheiros ser um bairro onde as pessoas andam muito a pé, não é para carrinho de bebê. É um bairro mais para carro do que para pedestres. A criança acorda às 5 horas da manhã e o que você faz se os restaurantes só abrem às 8, se o parquinho só abre mais tarde? Aqui no Rio você vai à praia às 7 horas da manhã, se você quiser. É muito diferente a forma como você se relaciona com a cidade quando tem uma criança.

Em São Paulo, quando éramos só eu e meu marido, a gente acordava tarde, adorava quando estava frio, ia para a exposição, ia em restaurante, pegava o cinema, ia no teatro.Você não faz mais nada disso com um filho pequeno, a não ser que você tenha uma babá 24 horas por dia – o que não era o nosso caso. É muito sobre o estilo de vida que se tem na cidade. Você quer ir para um parque? Você pega um carro, pega trânsito, tem que estacionar. E aí de novo, eu não sou de São Paulo, então eu não tenho minha família lá, não tenho referências de infância na cidade. Então bugou o meu cérebro e falei que precisava voltar. Tive esse clique, vamos voltar para o Rio? E quando voltamos, pensamos que queríamos ter uma vida de levar ele à pé para a escolinha, acordou, sol, vamos para a praia, vamos ao Jardim Botânico, vamos estar com outros amigos que têm filhos também ao ar livre, coisas de papo andando. E como o Rio é muito integrado, é mais fácil você combinar, “ah, estou na praia no Posto 10”, aí uma amiga fala que está no Posto 9 e vamos nos encontrar a pé, depois tomamos um sorvete. Isso não tem em São Paulo, né? No entorno muito privilegiado da Zona Sul também, obviamente. Onde dá para você transitar sem muito planejamento, sem muito estresse, de uma forma mais espontânea. Eu acho que eu precisava muito dessa espontaneidade, porque a maternidade, ela já é muito opressiva, para mim, pelo menos. Eu achava opressivo, o tanto de mochila que você tem que preparar, de carregar, você precisava se arrumar muito para sair de casa, etc. Quanto mais espontâneo puder ser! E aí voltamos e foi muito acertado para ter essa vivência.

9. Na época da mudança, durante a busca pelo apartamento em São Paulo, um dos seus pré-requisitos era um bairro onde fosse possível fazer tudo a pé. Quais foram seus critérios agora, nesse retorno?

Mariana
Foi exatamente o mesmo critério. Eu queria muito um bairro onde você tem uma vivência de rua. De você poder fazer todas as coisas andando, de ter comerciantes locais, conhecê-los pelo nome, você ter feiras perto, você poder circular, sentir a cidade. Eu gosto de estar onde a cidade é viva.

10. Acha que a chegada do seu filho mudou seu olhar sobre seu trabalho? E sobre a cidade, na relação com o lugar onde vivem?

Mariana
Total. E pra mim, essa relação com o local onde vivo é muito importante. Eu sou muito conectada com o ambiente em que eu estou. Eu não consigo me descolar disso. Eu gosto de estar ali em uma relação constante com o lugar onde que eu moro. De estar ali vivendo o bairro mesmo, a cidade, a rua. Se abre um comércio novo, um restaurante gosto de ir prestigiar, incentivar.

“Eu queria muito um bairro onde você tem uma vivência de rua. (...) É muito diferente a forma como você se relaciona com a cidade quando tem uma criança.”

11. A Tapilogie está com seu espaço físico no centro da cidade. Nos conta um pouco mais sobre a escolha da localização? E como foi a chegada no primeiro imóvel? Você andou sentindo mais movimentos como o seu na região?

Mariana
Então, eu adoro o Centro. Minha faculdade, pós e todos os trabalhos que tive aqui no Rio foram aqui. Foram dez anos vindo para cá. É um lugar que eu conheço e sou muito conectada pela minha história aqui. Eu já gostava dessa meio bagunça que temos, também dessa arquitetura antiga. Eu sempre gostei. E foi uma sorte voltar. Quando eu decidi vir para o Rio, quando virou uma chave em mim que eu tinha que voltar, liguei para a minha amiga Marina, falei, “cara, estou indo, você quer ver um lugar comigo para a gente alugar juntas?” Aí ela falou que por enquanto não estava muito com esse plano, mas que no sobrado que ela já alugava o terceiro andar estava vago. Então no dia que fui ver meu apartamento, também fui ver o espaço. Quando cheguei, eram 100 metros quadrados, muita pouca reforma para fazer, em um sobrado antigo, no terceiro andar – então tem uma escada, o que não era o ideal e quero mudar, mas para a chegada era ótimo. Eu iria estar perto de uma amiga, numa área afetiva para mim e com um aluguel baratíssimo. Então fechei no carro mesmo, ali no táxi voltando liguei pro proprietário, negociamos o aluguel e fizemos um contrato. Então foi um pouco de sorte, mas também tem a ver com o meu histórico de estar aberta para vir pra cá.

Eu acho que nem todo mundo tem esse olhar, talvez por não ter uma relação com o Centro. Às vezes a pessoa nunca trabalhou aqui, nunca fez nada aqui, não sabe nem o que tem, não sabe nem por onde andar, não sabe onde é seguro. Eu cheguei aqui já sabendo que era uma rua super boa, que tinha uns comércios legais. Já conseguia ter essa leitura, sabia que era um bom ponto.

O bairro mudou muito desde quando eu morava aqui, ainda mais depois da pandemia. Muitas coisas fecharam, mas acho que está tendo um movimento, principalmente no esforço da prefeitura, de tentar dar uma recuperada na região, de continuar com projetos de infraestrutura aqui. Eu sinto um potencial absurdo. Toda vez que eu trago pessoas aqui, fiz um evento semana passada, e, no final, todo mundo, “nossa, eu quero alugar um espaço tipo o seu aqui, que é barato e bonito e grande, né?” Tem algum lugar tipo o seu para alugar?” E aí pessoas que nunca cogitaram vir para o Centro, veem essa possibilidade. Eu acho que quanto mais as pessoas ocupam essa região, com mais negócios, restaurantes legais, outras lojas, outros espaços de exposição e galerias.. Quanto mais você ocupa com pessoas que validam o quanto é legal estar por aqui, você acaba trazendo mais gente.

12. O que você imagina para os próximos passos da Tapilogie? Existe algum projeto ou ideia que você ainda não conseguiu colocar em prática, mas que adoraria realizar?

Mariana
Sim, eu quero muito ter um espaço, aqui no Centro mesmo, um pouco mais preparado para receber as pessoas e não só fazer a venda online, ter um estoque maior. Ano que vem [2026], estou com uma ideia junto com a minha amiga Marina, da Casa Capioca, de termos um espaço juntas. Ela já está fazendo esse movimento de ir para um lugar maior, então, quem sabe, ano que vem eu vou junto com ela para poder ter essa possibilidade de receber as pessoas, sendo um espaço um pouco mais loja mesmo.

Eu gosto muito de trabalhar online, porque você fala com gente do Brasil inteiro. É muito legal você mandar uma peça para o Acre. Às vezes a pessoa nem sabe onde eu estou. Mas ter uma coisa um pouco mais presencial, fazer essa experiência, é o que eu penso para o ano que vem. Já fiz algumas experiências disso, mas ainda não com o afinco que eu gostaria.

[Conversa realizada em novembro de 2025. Agora, nesse mesmo momento de lançamento do Esquina, agosto de 2026, a Mariana está inaugurando um novo espaço da Tapilogie no Centro. O que aqui ainda era um sonho, está se tornando realidade. Após nossa conversa e a inusitada percepção de que a Tapilogie e a Cabiúna, do Antônio Maurício, estavam no mesmo quarteirão há um ano e meio sem se conhecer, apresentei os dois e surgiu a bonita oportunidade da Tapiologie alugar o espaço no andar em cima da Cabiúna, no sobrado na Rua da Candelária 92. A partir da Mariana, conheci a Marina Carioni e sua Casa Capioca, que na época estava no andar acima da antiga Tapilogie, e agora, está com novo espaço em um novo sobrado, na Rua Conselheiro Saraíva, nesse mesmo quarteirão. Agora a Tapilogie tem um lugar não somente para estoque, fotos e todo trabalho diário de operação da Tapilogie, mas também um espaço para receber suas freguesas e organizar eventos e encontros.]

”Eu adoro o Centro. É um lugar que eu conheço e sou muito conectada pela minha história aqui. (...) E foi uma sorte voltar. Eu sinto um potencial absurdo."

13. Nos registros do seu dia a dia e nas divulgações da Tapilogie, acompanhamos como você é uma entusiasta da cidade. Por onde você andou gostando de passear e quais lugares ou projetos você gosta de frequentar e apoiar?

[Todas indicações com descrições da Mariana no mapa abaixo]

Mariana
Eu sou muito essa pessoa que mora em um lugar e faz tudo nele. Eu me mudo e viro muito a pessoa do bairro. Eu incentivo. Se abrir um salão de beleza, eu vou pra incentivar, se abrir um restaurante novo, eu vou. Eu tenho muito isso, quero que o bairro prospere por conta de mim também. Pensando na vizinhança da Tapilogie, no Centro da cidade…

A Casa Capioca é a loja da minha amiga, a Marina. Ela garimpa móveis vintage de várias épocas, restaura as peças e faz um trabalho de garimpo maravilhoso. Para garimpo físico, acho que a Feira da Praça XV, que acontece aos sábados, é muito boa.

A Bibliomaison, que é a biblioteca do Consulado Francês, é um lugar de que gosto muito. Tem um café maravilhoso para tomar café da manhã, eles alugam livros em francês e é um ambiente ótimo para trabalhar ou fazer uma reunião.

A Casa Cavé é a confeitaria mais antiga do Rio.

Também gosto muito do Lilia, tanto a unidade da Rua do Senado quanto a que fica dentro do CCBB.

Na Rua do Senado, adoro os antiquários. São ótimos para garimpar. Eu gosto daqueles mais bagunçados, quanto mais bagunçado, melhor. Quando é muito arrumado, não gosto. Acho que tem muita coisa interessante por ali.

O Rio Minho é o restaurante mais antigo do Rio. Tem risoles, arroz de polvo e vários pratos de frutos do mar. É maravilhoso.
Também acho o Govardhana Hari muito bom.

14. Pensando na sua relação com a cidade do Rio e/ou com seus bairros, qual você diria ser a sua esquina?

Mariana
A esquina da Rua Francisco Otaviano com a Avenida Atlântica. Onde Arpoador e Copacabana se encontram, um lugar vivo, cheio de turistas e locais. Onde o novo café moderninho que abriu coexiste com a peixaria mais antiga da cidade, e dá pra ter uma vista do Pão de Açúcar, que é ao mesmo tempo nostálgica e de tirar o fôlego.

Lugares, negócios ou projetos que gosta de frequentar e apoiar

Rio de Janeiro

01 Tapilogie

R. Candelária, 92 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-020

02 Casa Capioca

R. Conselheiro Saraíva, 10 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-030

03 Bibliomaison

Avenida Presidente Antônio Carlos, 58

04 Casa Cavé

R. Sete de Setembro, 133 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20050-006

05 Restaurante Rio Minho

Rua do Ouvidor, 10 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20010-150

06 Cabiúna

R. Candelária, 92 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20091-020

07 Janela Livraria – Museu do Amanhã

Praça Mauá, 1 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20081-240

08 Café Tero

Ladeira Felipe Neri, 11 - Lj A - Saúde, Rio de Janeiro - RJ, 20081-110

09 Feira de Antiguidade Praça XV

Praça Quinze de Novembro - Centro, Rio de Janeiro - RJ

10 Govardhana Hari

Rua Rodrigo Silva, 6 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20011-040

11 Lilia Restaurante

Rua do Senado, 45 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20231-005

12 Antiquários Rua do Senado

Rua do Senado, Centro

13 Posto 6 (Copacabana)

14 Peixaria Z13

Avenida Atlântica, 213 - Copacabana, Rio de Janeiro - RJ, 22070-002